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sábado, 10 de outubro de 2009


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Cristo carregando a cruz, Santuário de Congonhas do Campo
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Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, (Vila Rica, 29 de agosto de 1730 - Vila Rica, 18 de novembro de 1814) foi um escultor, entalhador, desenhista e arquiteto no Brasil colonial.

Com um estilo relacionado ao barroco e especialmente ao rococó, é considerado o maior expoente da arte colonial em Minas Gerais (comumente chamada barroco mineiro) e no Brasil colônia em geral. Toda sua obra foi realizada em Minas Gerais, especialmente nas cidades de Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei e Congonhas do Campo. Os principais monumentos que contém suas obras são a Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.

Biografia

Muitas dúvidas cercam a vida de Antônio Francisco Lisboa. Praticamente todos os dados sobre sua vida são derivados de uma biografia escrita em 1858 pelo jurista Rodrigo José Ferreira Bretas, 44 anos após a morte do Aleijadinho, baseando-se em documentos e depoimentos de pessoas que conheceram o artista[1].
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Igreja de São Francisco em Ouro Preto, com uma magnífica portada em pedra-sabão realizada pelo Aleijadinho.


O mais importante dos documentos em que se baseou Bretas foi uma "Memória" escrita em 1790 por um vereador da cidade de Mariana. Neste documento, cujo original se perdeu, é feito um amplo relatório acerca do estado das artes nas Minas Gerais, incluindo alguns dados sobre o Aleijadinho relacionados a sua formação artística e sua participação em algumas obras [2]. Também é mencionado que Antônio Francisco era filho de um afamado mestre-de-obras português, Manuel Francisco Lisboa, que além de construtor atuava como arquiteto[2].

A data de nascimento do Aleijadinho é motivo de controvérsia. De acordo com o biógrafo Bretas, Antônio Francisco nasceu no ano de 1730 em Vila Rica (atual Ouro Preto) na frequesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, sendo filho de Manuel Francisco Lisboa e sua escrava africana, Isabel (ou Izabel)[3]. O filho, nascido escravo, foi alforriado no batismo. A certidão de batismo encontrada por Bretas dá a data de 29 de agosto de 1730 para o nascimento de Antônio. As dúvidas derivam do fato de que o nome do pai que figura na certidão é Manuel Francisco da Costa, e não Lisboa, o que poderia ser devido a um erro do escrivão. Outra fonte de dúvidas é a certidão de óbito do Aleijadinho, datada de 18 de novembro de 1814, na qual consta que o artista faleceu aos 76 anos de idade. A confiar neste documento, ele deveria haver nascido em 1738[4].

Antônio Francisco teve um filho natural - fora do casamento - aos 47 anos, a quem chamou Manuel Francisco Lisboa, mesmo nome do avô. Teve também vários meio-irmãos, frutos do casamento do seu pai[5]. Um destes meio-irmãos, padre Félix Antônio Lisboa, também foi escultor.

Formação

Segundo Bretas, Antônio Francisco sabia ler e escrever e poderia haver estudado latim. Sobre sua formação artística, a "Memória" do vereador de Mariana indica que Antônio Francisco teria recebido lições de seu pai e do desenhista e pintor português João Gomes Batista. Também Antônio Francisco Pombal, irmão do pai do Aleijadinho e portanto seu tio, era um afamado escultor e poderia ter participado da educação do jovem Antônio. Os críticos também apontam os escultores portugueses Francisco Xavier de Brito e José Coelho de Noronha como possíveis influências. Com Coelho de Noronha o Aleijadinho trabalhou efetivamente no início de sua carreira, cerca de 1758, nas obras de talha da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Caeté[1][6].

Alguns acreditam que Antônio Francisco poderia haver viajado ao Rio de Janeiro - então capital da colônia - na década de 1770, cuja fervilhante atividade artística também poderia ter influenciado o artista. Não há, porém, provas documentais de tal viagem.

Doença e morte

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Nossa Senhora das Dores, no Museu de Arte Sacra de São Paulo







Na descrição de Bretas, Antônio Francisco era "pardo escuro, tinha a voz forte, a fala arrebatada e o gênio agastado; a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa; o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto; a testa larga, o nariz retangular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes e o pescoço curto."[3]

A partir de 1777, o artista começou a sofrer os sintomas de uma misteriosa doença que lhe causou deformidades no corpo e que lhe valeram a alcunha de "Aleijadinho". Bretas diz que Antônio sofria dores horríveis e que eventualmente perdeu os dedos dos pés e teve de andar de joelhos. Também terminou por perder os dentes e os dedos das mãos, e suas deformidades teriam feito com que trabalhasse escondido por tendas para que as pessoas não o observassem. Seu escravo Maurício seria o responsável por atar a suas mãos os cinzéis com os quais esculpia[3]. Atualmente se debate que doença poderia ter causado esses problemas ao Aleijadinho, dividindo-se as opinioes entre sífilis, reumatismo, porfíria, hanseníase, lepra e poliomielite[4]. É muito provável que os sintomas devastadores descritos por Bretas sejam um tanto exagerados, uma vez que seria muito difícil que com tamanhas mutilações o Aleijadinho pudesse ter esculpido suas últimas obras em Congonhas do Campo.

Ainda segundo Bretas, o Aleijadinho morreu pobre e abandonado. Nos últimos anos de sua vida viveu na casa de sua nora Joana, que cuidou-o até a morte, ocorrida em 1814. A certidão de óbito encontrada no arquivo da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias diz o seguinte: "Aos dezoito de Novembro de mil oitocentos e quatorze, falleceo Antonio Francisco Lisboa, pardo solteiro de setenta e seis anos, com todos os Sacramentos encomendado Boa Morte e para clareza fiz passar este assento e que me assigno O Codjor José Como. De Moraes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Abdias do Nascimento
"Sempre que penso em Abdias do Nascimento o sentimento que me toma é de gratidão aos nossos deuses por sua longa vida e extraordinária história fonte de inspiração de todas as nossas lutas e emblema de nossa força e dignidade.
A história política e a reflexão de Abdias do Nascimento se inserem no patrimônio político-cultural pan-africanista, repleto de contribuições para a compreensão e superação dos fatores que vêm historicamente subjugando os povos africanos e sua diáspora. Abdias do Nascimento é a grande expressão brasileira dessa tradição, que inclui líderes e pensadores da estatura de Marcus Garvey, Aimé Cesaire, Franz Fannon, Cheikh Anta Diop, Léopold Sedar Senghor, Patrice Lumumba, Kwame Nkruman, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Steve Biko, Angela Davis, Martin Luther King, Malcom X, entre muitos outros.
A atualidade e a justeza das análises e das posições defendidas por Abdias do Nascimento ao longo de sua vida se manifestam contemporaneamente entre outros exemplo, nos resultados da III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, ocorrida em setembro de 2001, em Durban, África do Sul, que parecem inspiradas em seu livro O Genocídio do Negro Brasileiro (1978) e em suas incontáveis proposições parlamentares.

Aprendemos com ele tudo de essencial que há por saber sobre a questão racial no Brasil: a identificar o genocídio do negro, as manhas dos poderes para impedir a escuta de vozes insurgentes; a nos ver como pertencentes a uma comunidade de destino, produtores e herdeiros de um patrimônio cultural construído nos embates da diáspora negra com a supremacia branca em toda parte. Qualquer tema que esteja na agenda nacional sobre a problemática racial no presente já esteve em sua agenda política há décadas atrás, nada lhe escapou. Mas sobretudo o que devemos a ele é a conquista de um pensar negro: uma perspectiva política afrocentrada para o desvelamento e enfrentamento dos desafios para a efetivação de uma cidadania afrodescendente no Brasil, o seu mais generoso legado à nossa luta."
Sueli Carneiro in Abdias do Nascimento: o Griot e as Muralhas - Biografia de Abdias do Nascimento organizada por Éle Semog



quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Rainha Nzinga
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Na África como nas Américas resistiram á dominação colonial e á escravidão. Foi uma luta marcada por batalhas sangrentas,negociações , atos heróicos e traições. E nos combates dos negros contra o colonialismo português uma mulher se destacou como símbolo de coragem e persistência. Ela foi Nzinga ou Ginga ;como ficou conhecida no Brasil a grande rainha do povo negro de Angola.

Nzinga Mbandi Ngola kiluanji nasceu em 1582, quando Angola (que na época se chamava reino do Ndongo)começava a ser ocupada pelos portugueses. Sua mãe,Guemguela Camcombe,era uma escrava mbundo. Quando Nzinga nasceu os pais-de-santo do reino previram que caso ela chegasse á idade adulta e se tornasse rainha os rios do reino seria seriam inundados pelo sangue de muitas vitimas. Previram também que a nação seria invadida por homens brancos vindos do mar e que haveria doenças, fome, guerras, tristeza, e miséria em Angola. Cronistas da época diziam que a jovem princesa tinha os mesmos olhos sedutores da mãe, "a cor da noite", e o caráter firme do pai, o mais terrível adversário que os portugueses tinham enfrentado ate então. Apesar de filha do rei dos Mbundos, povo que vivia na parte ocidental de Angola (Ndongo), Nzinga descendida por parte do pai mesmo da realeza Jaga, povo da parte oriental de angola (Matamba). Os Jagas, junto com os Mbundos, estiveram na linha de frente da resistência á penetração portuguesa na África. Povo guerreiro, que ataca seus inimigos com falas, lanças, flechas, azagaias e escudos os jagas eram táticos militares que tinham como principal artifício a surpresa. Viviam em acampamentos muito bem vigiados, os quilombos, escolhendo de preferência e cobre adornando os braços e as pernas. Tinha paixão por tecidos e ropuas, trocando de traje várias vezes ao dia e mantendo seus tecelões permanentemente ocupados. Trezentas aias serviram rainha, revezando-se ininterruptamente em grupo de vez. Nos jantares, até oitenta pratos chegavam a ser servidos.

O Estado dirigido por Nzinga tinha uma estrutura burocrática acessível tanto a homens como a mulheres. Os principais critérios para acesso aos cargos e a promoção eram o merecimento e a lealdade. A origem familiar tinha pouca influência. A rainha possuía diversos ministros que a auxiliavam nas atividades de governo. Cada um deles contribuía com servos para o trabalho no campo e ficava encarregado de fiscalizar o trabalho desse pessoal. O reino possuía um sistema de justiça baseado no trabalho de advogados que ouviam as queixas dos clientes e as apresentavam às cortes regionais. Havia ainda um sistema de arrecadação de impostos, que eram pagos pelos sobas. O atraso nesses pagamentos implicava em punições.

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Em 1626, Nzinga deixou sua capital na Matamba oriental e armou seu acampamento de guerra numa ilha fluvial próxima à região de Mbaka, a antiga capital Mbundo. Recomeçaram os combates que prosseguiram por vários anos. Durante todo esse tempo os portugueses não param de tentar convencê-la a tornar-se uma aliada do rei. Mas em 1629, depois de uma batalha, duas irmãs de Nzinga, além de vários ministros, foram capturadas e isso ao mesmo tempo em que ela perdia o apoio de importantes chefes regionais. Nzinga inicia então um bloqueio ao comércio de escravos, fechando inúmeros entrepostos existentes no país. Isso afeta diretamente a vida econômica da colônia, totalmente baseada no tráfico de escravos. Os portugueses decidem então perseguir e capturar Nzinga onde quer que ela estivesse.

Enquanto isso suas irmãs eram recebidas em Luanda com honras de realeza (os portugueses esperavam formar com elas um governo fantoche que concorresse com Nzinga).

Entre 1630 e 1640, Nzinga reconstitui seus exércitos, abalados pelos choques com os portugueses, mas continua mantendo contatos diplomáticos com Luanda. Em 1641, ela recebe a notícia de que os holandeses haviam desembarcado na capital da colônia e entra em contato com eles, fechando um tratado de assistência mútua. Ela esperava contar com a ajuda dos holandeses para destruir a estratégica fortaleza de Massangano, na confluência dos rios Cuanza e Lucala.

Com o apoio dos holandeses e do rei do Congo, Nzinga impõe pessadas derrotas aos portugueses, sem no entanto conseguir tomar a fortaleza. A decisiva batalha final por Massangano foi vencida pelos portugueses em 1648.

O revez de Massangano e a derrota dos holandeses em Luanda mudariam o pensamento da rainha negra, a essa altura já com 66 anos de idade. O cansaço parece ter vencido a velha combatente no final da vida. Ela assina um novo tratado com os portugueses e começa a negociar a libertação de sua irmã Mocambo, o que conseguiria em 1657. A volta da irmã influência Nzinga a voltar ao catolicismo. Sob influência dos padres católicos, a rainha assinaria um último tratado com os portugueses, pelo qual eles se retirariam da parte oriental do reino em troc a da liberdade de comércio (leia- se tráfico) na parte ocidental. Em 1658 ela se casa com um escravo convertido e durante a cerimônia joga fora seu arco e flexa para demonstrar seu empenho pela paz. Depois disso, 1659, lança suas tropas contra o jaga Kalanda, um antigo aliado que recusara o acordo com os portugueses. Kalanda foi derrotado e Nzinga ordenou que sua cabeça, espetada em pau, fosse enviada ao governador português. Seguiram-se anos de decadência física até sua morte em 1663, aos 81 anos, sem herdeiros.

Jagas em Palmares?


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Existem fortes indícios do envolvimento, pelo menos numa primeira fase, dos mesmos povos africanos nas lutas travadas nas selvas de Angola e na serra da Barriga. O impulso inicial para o estabelecimento do quilombo de Palmares parece ter se originado com os bantos, povo proveniente de Angola. Aliás, vale lembrar, que os habitantes de Palmares chamavam a região de Angola  Janga (pequena Angola). Os escravos africanos enviados para o Brasil nesse período vinham na maior parte de Angola. Entre 1575 e 1681 cerca de um milhão de escravos foram embarcados de Angola para o Brasil. A importância de Angola como fornecedor de escravos para o Brasil era tão grande que a própria administração portuguesa desse território esteve subordinada às autoridades sediadas no Brasil.

Mario Martins de Freitas, autor do livro "Reino Negro de Palmares", diz que o quilombo de Palmares começou com a entrada no Brasil dos primeiros negros de Angola, provenientes das tribos jagas. Segundo Freitas, por questão de segurança os portugueses exportavam para o Brasil os jagas belicosos que caíam em suas mãos e teriam sido esses jagas que só admitiam a liberdade absoluta, os instituidores dos primeiros quilombos na serra da Barriga. Esses angolanos, segundo alguns historiadores, trouxeram sua língua, cultura e forma de governo a Palmares. Muitas palavras jagas foram aportuguesadas no Brasil (kilombo, mukambo, samba e gangazumba são apenas algumas delas).

Além disso, de acordo com algumas descrições, a área central do quilombo de Palmares, onde o chefe Ganga Zumba recebia seus hóspedes, era idêntica à corte do rei (ou rainha) de Angola. E, tanto no Brasil como na África, os quilombos eram situados no interior de densas florestas, próximos a escarpas e penhasco íngremes que proporcionavam vista panorâmica da região